Esta
é a Sua Vida
3ª Parte - Lurdinha, a comandante da guerra no
Transporte Escolar de SP
A paixão pelo trabalho
social Nos anos 60
e 70, antes de abraçar a
carreira empresarial e sindical,
Lurdinha teve uma vida dedicada
ao trabalho social, de assistência,
amparo e conscientização
política das camadas mais
humildes da população nordestina.
“Eu sempre tive grande
queda pela proteção ao agricultor.
Papai exigia que nós fôssemos
crianças, mas eu me apaixonei
pela agricultura, fiz experiências
com a queima de plantações,
principalmente com o sorgo,
que substituía o trigo.
Eu era contadora e professora”.
Católica fervorosa, a
família Rodrigues não perdia
missa aos domingos e o velho
Severino ensinava: “o dízimo
da Igreja é um e o do povo
é outro”. Encenavam a Paixão
de Cristo, antes da grande
montagem que existe hoje
em Nova Jerusalém. Lurdinha
cantava no coral da Igreja
Bom Jesus dos Remédios desde
os sete anos de idade.
Na década de 80, dirigiu
a Cruzada Infantil, com
200 crianças. “Dom Francisco,
bispo da diocese celebrava
a missa das dez e nela nós
podíamos tocar piano e cuidar
da catequese”.
Lurdinha ajudava a construir
a convivência solidária
entre ricos e pobres da
comunidade. Juntava as crianças
das famílias mais abastadas,
ensinando-as a conviver
com as mais pobres, no bairro
dos Borges. “Eram Moisés
na Terra Prometida”.
Lurdinha criou, aos domingos,
sessões de ginástica, ciranda,
canto e poesia. E participava
com a Igreja nas lutas pela
reforma agrária. “Eu ouvia
falar muito nos radicais
das Ligas Camponesas (Francisco
Julião), mas sabia que costumava
juntar pouca gente. As pessoas
em nossa região eram mais
de diálogo, de discussão.
A língua foi feita para
falar, o povo de lá dizia”.
Os latifúndios, com poucos
donos de terras - muitas
terras improdutivas, secas,
pedregosas - à base de cascalho
e açudes. Na “baixa”, os
riachos das chuvas. No alto,
o mangue. As principais
culturas eram o milho e
o feijão. Com a irrigação
veio fartura.
“Hoje temos a criação
de peixes, há fábricas de
móveis, cultivo de uvas
e outros meios de sobrevivência,
mas ainda persiste a seca”.
Pioneiro, o velho Severino
fundou a primeira cooperativa
de agricultores de Afogados,
foi seu primeiro presidente.
“Eu, menor de idade, fazia
a contabilidade, incentivada
por meus primos Albino e
Margarida. Com a morte de
meu irmão José, em 1974,
vim morar em São Paulo,
mas a saudade de Afogados
me fez retornar logo, depois
passei a me dedicar às crianças”.
Durante seu trabalho
comunitário, Lurdinha percebeu
que o agricultor precisava
de um programa de rádio
exclusivo. “Virei locutora
da Rádio Pajeú, da diocese
de Afogados, através do
Sindicato Rural. O programa,
transmitido aos domingos,
foi uma revolução. O agricultor
precisava saber de política,
o MDB tinha acabado de ser
criado e Severino havia
colocado uma placa enorme
na praça Monsenhor Alfredo
de Arruda Câmara, com o
nome do MDB.
“Eu dizia: “agricultor,
você tem o direito de não
votar na Arena, sem vocês
o Brasil pára, conheçam
o MDB que o governo garante”.
A polícia (grande Soldado
Chico) invadiu os estúdios
da rádio. “Papai foi para
lá me apoiar. Tiraram o
programa do ar por dez minutos.
Mas o MDB era partido oficial,
por que não se podia falar
nele? Papai, como político
do MDB, conversou com a
polícia e o programa voltou
ao ar”.
“Nunca tratei o povo
como miserável, entregando
comida em cima de caminhão”
A filha de Lurdinha,
Jane, hoje quase advogada,
estrelava o programa “Pinguinho
de Gente”. Afogados não
tinha jornal e Lurdinha
gostava mais da voz que
da escrita. Mas também escrevia
os boletins informativos
que circulavam de mão em
mão dos agricultores. Sua
voz irradiou o primeiro
comercial do RDB, uma aplicação
financeira do Banco do Brasil.
“Papai me levava para
o campo e íamos de casa
em casa. Ele era agricultor,
dono do “Sítio Encruzilhada”
e dividia a terra com outros
pagando pelos serviços e
diárias pelas tarefas. Os
meeiros viravam meus padrinhos
nas festas de São João”.
“Vesti a camisa do MDB
e fui de vez para o campo,
viajava de carro, jumento
e a pé. O senhor comeu o
quê hoje? Nunca concordei
em tratar o povo como miserável,
entregando comida em cima
de um caminhão. Fizemos
os cadastros das famílias
e passamos a distribuir
roupas, remédios e alimentos
dados pelas irmãs alemãs
da Igreja Católica”.
“Fui enfermeira em frentes
de trabalho, discuti muito
com engenheiros para melhorar
as condições de trabalho,
a falta de botas para os
homens”. Queriam fazer a
reforma agrária em regiões
de terras produtivas, falavam
muito no Paraná. Lurdinha
conta que em 1965, no Paraná,
houve um incêndio pavoroso
que matou muita gente nas
matas.
Fundamos o Sindicato
dos Trabalhadores Rurais
de Afogados da Ingazeira.
O presidente, Luís Marques
dos Santos, diziam que ele
era comunista e louco por
“inventar sindicato”. A
verdade é que ele tinha
uma visão do futuro. Meu
pai e eu o apoiamos. Deixou
uma grande lição. Ele tentava
levar a revolução para o
sertão atraindo as pessoas
importantes da cidade”.
“Gago, Marques tinha
uma grande visão futurista
o que dificultava para arregimentar
os agricultores, mas no
final deu certo. Todo agricultor
era sindicalizado, fosse
patrão ou empregado”. O
filho de Marques hoje é
presidente da Federação
dos Sindicatos Rurais do
Estado de Pernambuco.
Como Luís Marques, havia
Celeste, comunista ferrenha
de Tabira, que teve um fim
trágico, perseguida e assassinada
pela polícia. “Celeste tinha
uma filha, bailarina, que
me ensinava os passos e
era muito vigiada. Celeste
marcou muito nossa juventude”.
“Éramos crianças durante
o golpe de 1964 e, na escola,
nos orientavam a não falar
com comunistas. Severino
dizia que o ruim do comunismo
era o autoritarismo, mas
dizia, não tenha medo, fale
com todos.
Muita gente perseguida
pelos militares em Recife
escondeu-se em Afogados
em 1964. A luta continuava.
Além da sabedoria do velho
Severino, já falecido, para
Lurdinha os ensinamentos
mais valiosos foram trazidos
pelos Voluntários da Paz
(Peace Corps), os norte-americanos
aportados no Nordeste desde
o governo Kennedy, durante
o programa “Aliança
para o Progresso”, antes
do golpe.
“Através do Sindicato
Rural, firmaram um convênio
com os norte-americanos
para intercâmbio com o povo
do sertão. Os “Voluntários
da Paz” foram o que de mais
importante aconteceu no
meu desenvolvimento técnico.
Eu tinha uns 15 anos. Eram
oito americanos em nossa
região, brancos e negros,
que trabalhavam lá um ano
e voltavam para a América.
Eles mandavam pedras
de lá para os EUA”.
Os sertanejos ofereciam
suas casas e terras para
os americanos. “Dividíamos
as quadras de terras em
duas áreas, havia o lado
do Brasil e o lado americano.
No lado brasileiro, havia
queimadas e usávamos sementes
de safras. No lado americano,
aravam a terra e usavam
sementes selecionadas. Eles
obtinham mais produtividade
e colhiam o milho e trigo
maiores que os nossos”.
Severino aprendeu nomes
em inglês. Faziam um trabalho
social. “Eu aprendi a montaria
a cavalo com os americanos”.
Eles ensinavam prendas e
controle da natalidade para
as mulheres, comportamento
doméstico, alimentação,
saúde e inglês. Um deles,
o Steve, cuidava de lombrigueiras.
Nossa convivência durou
quatro anos”.
Ensinaram os sertanejos
a economizar hoje para ter
amanhã. Estocavam alimentos
no verão para comer no inverno.
“Os americanos nos ensinaram
a estocar alimentos para
os tempos de seca. Colhíamos
o milho e o feijão, secávamos
os grãos ao sol até ficarem
duros, peneirávamos e pisávamos.
Guardávamos em grandes sacos
pretos. Armazenávamos em
buracos apesar de existir
a Companhia de Armazenagem
Geral, a Cagep de Afogados”.
“Ensinavam a irrigar.
Diziam que precisávamos
aprender a plantar alimentos
nos apartamentos, a perfumar
as casas. Por que não dava
para plantar a algaroba,
uma leguminosa farinácea,
no sertão? “Verde, a algaroba
matava o gado, mas seca
era alimento. A algaroba
trazia insetos e a peste.
Os americanos nos ensinaram
tudo isso”.
FIM!
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