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Ano XI - Edição Nº 119 - outubro de 2003


Esta é a Sua Vida

3ª Parte - Lurdinha, a comandante da guerra no Transporte Escolar de SP

A paixão pelo trabalho social
Nos anos 60 e 70, antes de abraçar a carreira empresarial e sindical, Lurdinha teve uma vida dedicada ao trabalho social, de assistência, amparo e conscientização política das camadas mais humildes da população nordestina.  

“Eu sempre tive grande queda pela proteção ao agricultor. Papai exigia que nós fôssemos crianças, mas eu me apaixonei pela agricultura, fiz experiências com a queima de plantações, principalmente com o sorgo, que substituía o trigo. Eu era contadora e professora”.

Católica fervorosa, a família Rodrigues não perdia missa aos domingos e o velho Severino ensinava: “o dízimo da Igreja é um e o do povo é outro”. Encenavam a Paixão de Cristo, antes da grande montagem que existe hoje em Nova Jerusalém. Lurdinha cantava no coral da Igreja Bom Jesus dos Remédios desde os sete anos de idade.  

Na década de 80, dirigiu a Cruzada Infantil, com 200 crianças. “Dom Francisco, bispo da diocese celebrava a missa das dez e nela nós podíamos tocar piano e cuidar da catequese”.

Lurdinha ajudava a construir a convivência solidária entre ricos e pobres da comunidade. Juntava as crianças das famílias mais abastadas, ensinando-as a conviver com as mais pobres, no bairro dos Borges. “Eram Moisés na Terra Prometida”.

Lurdinha criou, aos domingos, sessões de ginástica, ciranda, canto e poesia. E participava com a Igreja nas lutas pela reforma agrária. “Eu ouvia falar muito nos radicais das Ligas Camponesas (Francisco Julião), mas sabia que costumava juntar pouca gente. As pessoas em nossa região eram mais de diálogo, de discussão. A língua foi feita para falar, o povo de lá dizia”.

Os latifúndios, com poucos donos de terras - muitas terras improdutivas, secas, pedregosas - à base de cascalho e açudes. Na “baixa”, os riachos das chuvas. No alto, o mangue. As principais culturas eram o milho e o feijão. Com a irrigação veio fartura.

“Hoje temos a criação de peixes, há fábricas de móveis, cultivo de uvas e outros meios de sobrevivência, mas ainda persiste a seca”.

Pioneiro, o velho Severino fundou a primeira cooperativa de agricultores de Afogados, foi seu primeiro presidente. “Eu, menor de idade, fazia a contabilidade, incentivada por meus primos Albino e Margarida. Com a morte de meu irmão José, em 1974, vim morar em São Paulo, mas a saudade de Afogados me fez retornar logo, depois passei a me dedicar às crianças”.

Durante seu trabalho comunitário, Lurdinha percebeu que o agricultor precisava de um programa de rádio exclusivo. “Virei locutora da Rádio Pajeú, da diocese de Afogados, através do Sindicato Rural. O programa, transmitido aos domingos, foi uma revolução. O agricultor precisava saber de política, o MDB tinha acabado de ser criado e Severino havia colocado uma placa enorme na praça Monsenhor Alfredo de Arruda Câmara, com o nome do MDB.

“Eu dizia: “agricultor, você tem o direito de não votar na Arena, sem vocês o Brasil pára, conheçam o MDB que o governo garante”. A polícia (grande Soldado Chico) invadiu os estúdios da rádio. “Papai foi para lá me apoiar. Tiraram o programa do ar por dez minutos. Mas o MDB era partido oficial, por que não se podia falar nele? Papai, como político do MDB, conversou com a polícia e o programa voltou ao ar”.

“Nunca tratei o povo como miserável, entregando comida em cima de caminhão”

A filha de Lurdinha, Jane, hoje quase advogada, estrelava o programa “Pinguinho de Gente”. Afogados não tinha jornal e Lurdinha gostava mais da voz que da escrita. Mas também escrevia os boletins informativos que circulavam de mão em mão dos agricultores. Sua voz irradiou o primeiro comercial do RDB, uma aplicação financeira do Banco do Brasil.

“Papai me levava para o campo e íamos de casa em casa. Ele era agricultor, dono do “Sítio Encruzilhada” e dividia a terra com outros pagando pelos serviços e diárias pelas tarefas. Os meeiros viravam meus padrinhos nas festas de São João”.

“Vesti a camisa do MDB e fui de vez para o campo, viajava de carro, jumento e a pé. O senhor comeu o quê hoje? Nunca concordei em tratar o povo como miserável, entregando comida em cima de um caminhão. Fizemos os cadastros das famílias e passamos a distribuir roupas, remédios e alimentos dados pelas irmãs alemãs da Igreja Católica”.

“Fui enfermeira em frentes de trabalho, discuti muito com engenheiros para melhorar as condições de trabalho, a falta de botas para os homens”. Queriam fazer a reforma agrária em regiões de terras produtivas, falavam muito no Paraná. Lurdinha conta que em 1965, no Paraná, houve um incêndio pavoroso que matou muita gente nas matas.

Fundamos o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Afogados da Ingazeira. O presidente, Luís Marques dos Santos, diziam que ele era comunista e louco por “inventar sindicato”. A verdade é que ele tinha uma visão do futuro. Meu pai e eu o apoiamos. Deixou uma grande lição. Ele tentava levar a revolução para o sertão atraindo as pessoas importantes da cidade”.

“Gago, Marques tinha uma grande visão futurista o que dificultava para arregimentar os agricultores, mas no final deu certo. Todo agricultor era sindicalizado, fosse patrão ou empregado”. O filho de Marques hoje é presidente da Federação dos Sindicatos Rurais do Estado de Pernambuco.

Como Luís Marques, havia Celeste, comunista ferrenha de Tabira, que teve um fim trágico, perseguida e assassinada pela polícia. “Celeste tinha uma filha, bailarina, que me ensinava os passos e era muito vigiada. Celeste marcou muito nossa juventude”.

“Éramos crianças durante o golpe de 1964 e, na escola, nos orientavam a não falar com comunistas. Severino dizia que o ruim do comunismo era o autoritarismo, mas dizia, não tenha medo, fale com todos.

Muita gente perseguida pelos militares em Recife escondeu-se em Afogados em 1964. A luta continuava. Além da sabedoria do velho Severino, já falecido, para Lurdinha os ensinamentos mais valiosos foram trazidos pelos Voluntários da Paz (Peace Corps), os norte-americanos aportados no Nordeste desde o governo Kennedy, durante o programa  “Aliança para o Progresso”, antes do golpe.  

“Através do Sindicato Rural, firmaram um convênio com os norte-americanos para intercâmbio com o povo do sertão. Os “Voluntários da Paz” foram o que de mais importante aconteceu no meu desenvolvimento técnico. Eu tinha uns 15 anos. Eram oito americanos em nossa região, brancos e negros, que trabalhavam lá um ano e voltavam para a América. Eles  mandavam pedras de lá para os EUA”.

Os sertanejos ofereciam suas casas e terras para os americanos. “Dividíamos as quadras de terras em duas áreas, havia o lado do Brasil e o lado americano. No lado brasileiro, havia queimadas e usávamos sementes de safras. No lado americano, aravam a terra e usavam sementes selecionadas. Eles obtinham mais produtividade e colhiam o milho e trigo maiores que os nossos”.

Severino aprendeu nomes em inglês. Faziam um trabalho social. “Eu aprendi a montaria a cavalo com os americanos”. Eles ensinavam prendas e controle da natalidade para as mulheres, comportamento doméstico, alimentação, saúde e inglês. Um deles, o Steve, cuidava de lombrigueiras. Nossa convivência durou quatro anos”.

Ensinaram os sertanejos a economizar hoje para ter amanhã. Estocavam alimentos no verão para comer no inverno. “Os americanos nos ensinaram a estocar alimentos para os tempos de seca. Colhíamos o milho e o feijão, secávamos os grãos ao sol até ficarem duros, peneirávamos e pisávamos. Guardávamos em grandes sacos pretos. Armazenávamos em buracos apesar de existir a Companhia de Armazenagem Geral, a Cagep de Afogados”.

“Ensinavam a irrigar. Diziam que precisávamos aprender a plantar alimentos nos apartamentos, a perfumar as casas. Por que não dava para plantar a algaroba, uma leguminosa farinácea, no sertão? “Verde, a algaroba matava o gado, mas seca era alimento. A algaroba trazia insetos e a peste. Os americanos nos ensinaram tudo isso”.

FIM!

 
 


     
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